Não se engane aquele que achar que a frase acima é minha: é uma corruptela de um velho pensamento do Rei Salomão, sobre a importância do crescimento intelectual das pessoas. Julgo-a adequada pro que quero discutir brevemente aqui, de forma bem simples e direta.
Estudar para alguns é chato. Não vou dizer que não é, porque já fui (e ainda sou) aluno e sei o quanto me causava agonia ter de sentar e estudar um monte de coisas das quais não gostava e não tinha sequer o interesse de guardar na minha cabeça. Química, então, era meu nêmesis, eu detestava completamente. Só que nessa birra que trazemos da infância para a idade adulta, construímos um paradigma que nos atormenta o resto da vida: a ideia de que estudar é chato.
Estudar não é chato: chato é estudar o que não se gosta ou não nos interessa, por pura e simples obrigação. Descobri isso algum tempo depois de formado, ao notar que sentia vontade de me aprofundar em alguns campos que me interessavam já na fase profissional. Desde que me formei, em 2003, não parei de estudar: fiz Escola da Magistratura, uma atualização em direito penal e processual penal, um curso de direito público, uma pós-graduação lato sensu em direito ambiental, e concluí há pouco meu mestrado em desenvolvimento local. Para 2012, já tenho planos de começar meu doutorado, só não decidi ainda em que área e nem onde vou fazer.
Vamos partir do básico: se estudar fosse realmente chato, por que a esmagadora maioria (pleonasmo estilístico, fica a dica) dos profissionais não pára de estudar? Necessidade do mercado? Em parte. Outra parte é porque deixa de existir a pressão e obrigação do estudo dos tempos de academia: passamos a ter a liberdade de estudar o que quisermos, e quando quisermos. O estudo se torna prazer, e não suplício.
Então, caro amigo, se você ainda acha que "estudar é uma chatice", lembre-se que a chatice não repousa no ato de estudar em si, mas na pressão social que existe na obrigação de estudar conteúdos com os quais você não se afiniza para um fim determinado (uma prova, por exemplo). Quando você tiver a oportunidade de escolher O QUE estudar, QUANDO estudar, e COMO estudar, vai ver o quanto a coisa muda de figura.
Mas e quando você QUER estudar, e não consegue?
Esse problema atormenta dezenas de milhares de jovens no Brasil hoje. Sejam a péssima infra-estrutura das escolas públicas, sejam os problemas de greves constantes dos professores, sejam ainda profissionais mal remunerados, pouco habilitados, ou que simplesmente não cumprem seu dever mais básico, que é o de transmitir o seu conhecimento, e fomentar o raciocínio crítico de seus alunos.

Já descrevi uma vez aqui no blog minha experiência como professor, e como encaro minha função. É uma responsabilidade grande, e me chateia demais quando vejo situações, por exemplo, como as que estão ocorrendo nesse exato momento com os acadêmicos de medicina da Universidade Federal do Mato Grosso, a UFMT. Há mais ou menos 30 dias, mais de 200 acadêmicos estão paralisados, em protesto às condições do curso. Muitos alegam que não há salas suficientes, e que apesar de o curso contar com 137 professores, menos de 20% das aulas práticas foram ministradas, segundo os conteúdos programáticos apresentados. A situação culminou com a apresentação de um documento assinado pelos acadêmicos ao Ministério Público Federal, denunciado todas as irregularidades.
Eu me coloco no lugar de um acadêmico desses, que dedicou-se intensamente aos estudos para concorrer a uma das 40 (hoje 80) vagas do curso, contra milhares de outros candidatos, deixando de lado muitas vezes o convívio com a família para morar numa cidade longe da sua, para chegar na hora e ter todos os seus sonhos reduzidos a uma grande e enorme pilha de pó de frustração. Uma sensação de vazio e indignação que consome toda a alegria da vitória no vestibular, transformando-a em constrangimento e pesar quando devidamente matriculados. Tenho a certeza de que não é uma sensação legal de se sentir.
O problema da educação hoje vai além da "chatice que é estudar": repousa realmente naqueles que QUEREM passar por essa "chatice", mas que simplesmente não conseguem, porque as pessoas que deveriam proporcionar a elas essa oportunidade não estão nem aí. Esse quadro caótico se replica em dezenas de outras universidades federais Brasil afora, demonstrando o quão mal está sendo empregado o recurso público federal no que tange ao ensino superior no nosso país. Falta fiscalização, falta cobrança, falta uma presença mais marcante da administração pública dentro das universidades. Ainda bem que o que não falta é o sentimento de indignação no espírito desses jovens, que se mobilizam por um dos direitos mais fundamentais que nos é garantido na Constituição, em seu artigo 6.º, bem como no art. 205: o da educação de qualidade, para a formação de bons cidadãos.
A vida inteira a gente ouve que a "educação é a solução para todos os nossos problemas"... Se a gente já sabe disso, por que raios o poder público não faz nada para buscá-la?
--- "Street Fighting Man" (The Rolling Stones)

2 comentários:
Obrigada Rafael pelo apoio! Nós alunos de Medicina da UFMT estamos nessa luta pela educação! Queremos fazer com que ela seja realmente a número 1 do país!
Concordo PLENAMENTE com o que foi dito.
(olha, momento inédito)
Postar um comentário